amores
Estava pensando em todo o tempo que dediquei
aos meus amores, incluindo os maus sucedidos. Bem, coloco como bem sucedidos os
dos meus pais, que aos trancos e barrancos a gente vai se entendendo ou
aceitando, tolerando. Mas esses ainda são os mais fáceis, afinal, dificilmente
deixariam de me amar – ah, não por ser eu uma pessoa especial no mundo mas por
ser filha deles!
Amizades, bem, são tão poucas que nem gosto
de contar, não enchem uma mão. Sou da opinião que melhor só do que mal
acompanhada!
Tenho aqueles amores que jamais me serão
meus: a genialidade, a escrita e o dinheiro, creio veementemente que dinheiro,
definitivamente não será um dos meus amores, tão pouco amante...
Mas aqueles que de fato um dia amamos, e
tentamos compreender como foi que aconteceu. Hoje, analiso um pouco mais
friamente. Acho que um deles foi porque era proibido, totalmente. Porque era de
fato, um pacto, selado com sangue como manda o figurino.
Outro, foi quase que uma disputa, um cortejo,
um desafio grande a concluir. Foi difícil manter. E então, procurei por muito
tempo um substituto, pois deveria terminar o que comecei.
Na verdade queria alguém para eu cuidar,
amar, proteger e ensinar os truques dessa vida no mundão de Deus.
Quando tive meu maior amor, meu filho,
compreendi que ali, realmente se iniciara o que me propusera com outros homens
– homens só no censo, pois eram infantis perto do sentido maduro da palavra.
Jamais procurei um pai pra mim. Nunca
precisei, pois quando era na idade de ter, o tive. Aceito meu pai como ele é,
mesmo tendo minhas discussões, eu o amo e sei que não posso mudá-lo. Talvez
seja isso que me falte com algumas pessoas: aceitá-las como são!
Lembro-me bem quando, há muito tempo atrás
uma ex-sogra me disse: “tu é a mulher pro meu filho” – além de me sentir
honrada, já que ela tinha um grande reconhecimento meu, parecia que ali alguém
estava dizendo que estava ficando pronta para o “ser adulta”.
Em verdade, fui viver isso uns anos depois,
com o nascimento de meu filho.
Hoje tenho dois trabalhos, se não fosse o
tratamento de canal no molar, acho que poderia ainda dançar a noite e estaria
bem às 6h 20min da manhã que me acordo diariamente.
Sou forte, muito forte. Sou frágil, muito
frágil. Sou um ouriço-do-mar, cheio de espinhos por fora e uma gelatina por dentro.
Faço cara feia só para não mexerem comigo, pra acreditarem que sou a mulher de
ferro... mas em verdade, sou aquela que quer colo, que quer ser chamada de
amada, de querida, meu amor... que quer ser puxada pelo braço de repente e ser
beijada não importa onde. Que gosta de romantismos, que passa muito tempo
olhando a lua sem nem mesmo saber exatamente o que a atrai tanto fazendo
isso...
Meus amores sempre terão seus lugares em
minha memória. Um lugar especial.
Hoje não me vejo com ninguém e tão pouco a
procura de um. Acho que vivo um tempo de peregrinação solitária. Não é ruim. A
solidão, que tanto me apavorou por quase toda a vida, anda me dizendo que
podemos ser amigas. E sinto que na solidão, posso ver melhor as pessoas. Posso
conduzir minha vida simples de maneira simples. Correria, jamais poderei
evitar, parece que nasci pra tempestade... mas mesmo assim, hoje, me sinto mais
livre quando finalmente disse adeus aos temores de outrora.
Eu, numa tarde quente de março, escrevendo
por ter muito o que fazer e tão pouco tempo, mas o que é o tempo se aquilo se
chama vida. O tempo, pra alguns pode ser o Chronos, os devorando, o relativismo
do Einstein...
Eu tive tempo pra amar e amei profundamente,
tive tempo de luto e o usei, tive o tempo do adeus. Agora vivo o tempo do hiato
entre o antes e o depois – o agora é meio imprevisível... pois o futuro
desconhecemos, o passado não tem concerto e o presente... depende de tantos
fatores...
Penso que haverá um tempo pra cada coisa,
assim aconteceu comigo. Sempre que estive preparada para algo, isso aconteceu.
Então já não me aflijo muito com certas coisas... pois elas irão acontecer.
Sinto as profecias que disse se encaminharem a se materializar no exato momento
em que estiver pronta pra assumir!
Claro, existiram sonhos que não alcancei, mas
eles não eram profecias! Sou uma mulher firme de convicções, mas muito flexível
em certas ocasiões. Tive, certa vez que dizer o que por muitos anos ficou
entalado dentro de mim e depois de analisar tudo, verifiquei que amava o passado,
não o presente. Que mudei vertiginosamente e outros pararam no tempo... Ninguém
pode ser culpado, cada um sabe o que lhe move, ou não sabe e mesmo assim o faz.
Sou difícil, quero as coisas como idealizei e
sei que isso pode ser interpretado como infantilidade, controladorismo e até
mesmo, sei lá, uma falta enorme de senso de realidade e aceitação dos demais.
Mas não mordo, não jogo materiais inflamáveis nas pessoas, não trapaceio, não
roubo, “não arranho discos ou cds, não quebro xícaras...” .
Então aqueles que me amam é porque passaram
por cima de tudo isso, tiveram acesso ao meu interior gelatinoso, não tiveram
medo dos espinhos. A estes devo todo meu carinho!!!